A semana política foi marcada por turbulência, improviso e sucessivos constrangimentos institucionais. O epicentro esteve na Câmara dos Deputados, onde o presidente da Casa, Hugo Motta, voltou a demonstrar dificuldades evidentes para exercer a liderança do Parlamento. O ambiente de desorganização em Brasília não fica restrito aos corredores do Congresso: ele tende a reverberar nos estados e municípios, inclusive em Jequié, especialmente com a aproximação do calendário eleitoral de 2026.

O último a sair, apaga a luz

O Congresso Nacional parece cada vez mais distante de sua função constitucional. Em muitos momentos, transforma-se em um espaço dominado por interesses privados, lobistas e empresários, em detrimento das necessidades reais da população brasileira. A postura da atual condução da Câmara faria Ulisses Guimarães revirar-se no túmulo.

Hugo Motta mostrou, mais uma vez, fragilidade política e ausência de comando. Logo no início do ano, foi acuado por parlamentares da extrema direita que chegaram a ocupar a cadeira da presidência por dois dias. Diante do fato, silenciou. Só retomou o controle após articulação direta de Arthur Lira — que, na prática, segue exercendo mais poder que o próprio presidente da Casa.

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Nesta semana, o roteiro se repetiu, agora em outro espectro ideológico. Um deputado da esquerda ocupou a mesa diretora em protesto contra o processo de cassação de seu mandato. A reação de Motta foi imediata: determinou a retirada à força pela polícia legislativa e, em meio à confusão, a imprensa acabou sendo empurrada e agredida para não registrar os excessos. Depois, veio a versão clássica: disse que não havia ordenado nada.

Reviravolta

O que Motta e Arthur Lira não esperavam era que o processo contra Glauber Braga se transformasse em um revés político. O plano de cassação total, que tornaria o parlamentar inelegível, fracassou. O pano de fundo é conhecido: foi Glauber quem denunciou esquemas que tinham Lira como figura central.

O resultado final foi uma punição muito menor do que a desejada: suspensão de seis meses do mandato. Glauber permanece deputado e apto a disputar a reeleição em 2026. Para agravar ainda mais a situação de Lira, no dia seguinte a Polícia Federal deflagrou operação contra seu grupo político e prendeu uma ex-assessora. O desgaste aumenta — e tende a crescer.

Tchau, espanhola

Como se não bastasse, a semana de Hugo Motta piorou. Após o fracasso na tentativa de cassar Glauber Braga, o presidente da Câmara articulou para salvar o mandato da deputada Carla Zambelli, presa na Itália e condenada por invasão aos sistemas do Judiciário brasileiro. O Supremo Tribunal Federal já havia determinado a perda do mandato, mas Motta protelou a decisão o quanto pôde.

A bancada bolsonarista comemorou como se fosse final de Copa do Mundo. A festa, no entanto, durou pouco. No dia seguinte, o ministro Alexandre de Moraes determinou que a decisão da Câmara não tinha validade jurídica e ordenou que, em 48 horas, fosse publicada a perda do mandato e convocado o suplente.

Foi o gran finale de uma semana desastrosa para Motta, que entra em 2026 com um cenário político extremamente adverso.

Magnitsky flopada

O inferno astral do bolsonarismo segue em ritmo acelerado. Apostava-se que Donald Trump partiria para o confronto direto com Alexandre de Moraes, forçando algum tipo de recuo institucional no Brasil. O efeito foi exatamente o oposto.

Moraes manteve sua posição, avançou nos processos e assinou a condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão. Bastou uma ligação do presidente Lula para que o governo norte-americano recuasse e retirasse as sanções contra Moraes e sua esposa. Todo o esforço internacional de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo foi pelo ralo.

Nas redes sociais, o malabarismo retórico dos bolsonaristas para minimizar mais essa derrota foi constrangedor. A família Bolsonaro está politicamente esvaziada — ainda que se recuse a admitir.

‘Na cara não, para não estragar o velório’

A frase imortalizada no filme Tropa de Elite voltou a circular com força nas redes sociais nesta semana. O motivo foi a atuação do senador Otto Alencar, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

Ao responder a um colega defensor da ditadura, Otto deu uma aula de história, democracia e civilidade política. Argumentos firmes, consistentes e irrefutáveis. Um usuário resumiu o momento com perfeição: “Na cara não, para não estragar o velório”. O constrangimento foi tamanho que a cena já entrou para o acervo dos memes políticos nacionais.

Olha o Pix

O jornalismo da Rádio 95 FM também fez sua parte nesta semana. Um levantamento detalhado analisou o uso das chamadas emendas Pix pelos deputados federais com base eleitoral em Jequié — modalidade que dispensa convênios e tem sido alvo de investigações da Polícia Federal, da CGU e do STF.

O contraste foi evidente. Enquanto um deputado utilizou mais de R$ 45 milhões nessa modalidade pouco transparente, outro não destinou nenhum centavo por esse mecanismo e, ainda assim, enviou recursos ao município por meios tradicionais e rastreáveis.

O deputado Antonio Brito optou pelas emendas convencionais, com identificação clara do destino e da finalidade dos recursos. Transparência não é favor: é obrigação. O dinheiro é público, e a população tem o direito de saber como ele é gasto.

As voltas do mundo

No cenário local, a semana terminou com um desfecho judicial envolvendo figuras conhecidas da política jequieense. A Justiça reconheceu o uso indevido de uma posição pública para a propagação de ataques pessoais contra um antigo ocupante do comando do município.

A decisão fixou indenização de R$ 10 mil e deixou uma lição inequívoca: palavras têm peso e geram consequências. No debate político, a crítica é legítima — desde que respeite limites e esteja amparada por fatos e decisões judiciais. Fora disso, o custo pode ser alto.

Dor de Cotovelo

Tem gente sentindo dor de cotovelo ao ver a força que o prefeito Zé Cocá consolidou junto ao governo do Estado. Jequié deixou de ser coadjuvante e passou a ocupar lugar de destaque no tabuleiro político baiano — e o “pintadinho” é a figura central desse novo cenário.

Com inteligência política e leitura precisa do momento, Cocá colocou no bolso os velhos grupos que durante décadas se diziam donos da política local. Sumiram do debate público. Ninguém mais fala dos antigos caciques nem dos asseclas que rondavam os bastidores do poder jequieense.

A demonstração de força veio nas urnas: reeleição com mais de 92% dos votos, em uma vitória sem sustos, com o pé nas costas. Não bastasse isso, Cocá ainda atuou decisivamente para a eleição de diversos prefeitos na região, ampliando sua influência para além dos limites do município.

O resultado é visível: Jequié virou a “menina dos olhos” de políticos estaduais, e o prefeito segue acumulando capital político. Para 2026, a tendência é de ainda mais protagonismo — o que explica o desconforto crescente de quem ficou pelo caminho.

E para os inconformados, fica o recado: se for chorar… manda áudio.

FONTE/CRÉDITOS: Redação