O ano eleitoral começou, enfim. E começou do jeito que a política gosta: com turbulência, ruído internacional e reflexos diretos no tabuleiro interno. Em 2026, o jogo será pesado. No Senado, 54 senadores tentarão renovar seus mandatos, enquanto a Câmara dos Deputados entra no ano decisivo tentando, a qualquer custo, reduzir o desgaste de imagem junto ao eleitorado.
Na Bahia, o cenário também é de incerteza. O senador Ângelo Coronel (PSD) vive um momento delicado, isolado dentro do próprio grupo político e sem garantia de espaço na chapa governista. Vamos aos fatos.
As voltas do mundo
Esse mundão velho não gira. Ele capota.
Quem não se lembra da família Bolsonaro elogiando a Ditadura Militar, defendendo torturadores, bradando frases como “Ustra vive” e repetindo, sem pudor, que “bom mesmo era no tempo dos militares”? Pois é. O roteiro da política brasileira resolveu testar os limites da ironia.
Preso por tentativa de golpe de Estado, condenado a 27 anos de prisão, e iniciando o cumprimento da pena em regime fechado após tentar violar a tornozeleira eletrônica, Jair Bolsonaro agora se diz doente e pede, reiteradamente, para ser levado ao hospital. Se tivesse seguido as regras impostas pela Justiça, poderia estar hoje em prisão domiciliar. Mas preferiu brincar de estudante do SENAI, tentando romper a tornozeleira com um ferro de solda.
Resultado: castigo maior e cela na Superintendência da Polícia Federal. Ao ter o pedido de domiciliar negado, os filhos passaram a classificar a situação como “tortura”. A ironia é cruel — e histórica: o mesmo Bolsonaro que relativizou, defendeu e aplaudiu a tortura agora reclama de tratamento desumano.
Nem guindaste
O plano da família Bolsonaro de transformar Flávio Bolsonaro em presidenciável enfrenta obstáculos em série. As pesquisas de intenção de voto não animam, a rejeição interna cresce e nem mesmo o eleitorado fiel do pai parece convencido de que Flávio teria força para ameaçar uma eventual reeleição de Lula.
Nos bastidores, aliados já trabalham com outra alternativa: Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, como o verdadeiro nome competitivo do bolsonarismo. A tentativa de Flávio de ganhar musculatura política ainda respingou na Bahia, quando convidou ACM Neto para compor chapa como vice. A resposta foi rápida e direta: não.
Nem guindaste II
A recusa de ACM Neto tem explicação clara. Pesquisas internas o colocam, novamente, como favorito ao governo da Bahia, repetindo o cenário de 2022. Mas a pergunta permanece: veremos um replay daquela eleição?
Na campanha passada, Neto errou ao não definir um presidenciável. Flertou com Bolsonaro, percebeu a rejeição na Bahia e tentou se aproximar de Lula — tarde demais. Não colou. Agora, promete ter um candidato a presidente, seja Flávio Bolsonaro ou qualquer outro nome do bolsonarismo.
O problema é estrutural: na Bahia, a força do PT segue sendo maior que qualquer arranjo da oposição. Resta a Neto torcer para que as disputas internas do petismo deixem sobras políticas suficientes para ele capitalizar.
A incógnita Coronel
O senador Ângelo Coronel vive hoje um roteiro semelhante ao de Lídice da Mata, em 2018, quando foi retirada da chapa majoritária para abrir espaço justamente para ele. À época, Lídice tinha mandato ativo e protagonismo, mas o peso do PSD falou mais alto.
Agora, a conta se inverte. O grupo governista trabalha com a ideia de uma chapa “puro-sangue” ao Senado, formada por Jaques Wagner e Rui Costa, como o próprio Rui já antecipou. Coronel afirma que é candidato à reeleição, mas, se insistir, terá que seguir em chapa avulsa.
Para tentar manter o PSD no arco de alianças, surge uma solução alternativa: a vaga de vice-governador. Nos bastidores de Salvador, ganha força a ideia de Diego Coronel, filho do senador, ocupar a posição, sacrificando o atual vice, Geraldo Júnior. Um movimento clássico de acomodação política — e que ainda promete muita tensão até a definição final.
Olha ele
Se no plano estadual há incerteza, no cenário local há quem comemore. O vereador Bui Bulhões aparece como destaque em levantamento da 95 FM, com base nos dados do SAPL, liderando em presença e atuação legislativa.
Em seu segundo mandato, Bui consolida espaço como liderança jovem e ativa, correspondendo à confiança de quem lhe deu o voto. É exatamente isso que se espera de um representante do Legislativo. Fica o registro — e também a crítica: a divulgação dos últimos colocados faria ainda mais bem à democracia, permitindo cobrança direta da população.
Mas esse debate fica para depois. O foco agora é 2026. E uma pergunta começa a circular nos bastidores de Jequié: qual governador contará com o apoio do vereador destaque de 2025?
A resposta, como sempre na política, ainda está em construção.
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