Desde maio deste ano, as empresas brasileiras têm uma nova responsabilidade: identificar, avaliar e prevenir os chamados riscos psicossociais no ambiente de trabalho. A determinação está na atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego, que passou a incluir expressamente fatores como assédio, sobrecarga, excesso de jornada e estresse ocupacional entre os elementos que devem ser mapeados nos Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR) das organizações.

Segundo o texto da norma, o gerenciamento de riscos ocupacionais "deve abranger os riscos que decorrem dos agentes físicos, químicos, biológicos, riscos de acidentes e riscos relacionados aos fatores ergonômicos, incluindo os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho". Na prática, isso significa que o estresse crônico, a pressão excessiva e o esgotamento deixam de ser tratados apenas como uma questão de bem-estar individual e passam a integrar formalmente a gestão de riscos das empresas — ao lado de problemas já conhecidos, como níveis de ruído e exposição a produtos químicos, por exemplo.

Um problema que já preocupa autoridades globais

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O contexto regulatório brasileiro acompanha uma preocupação internacional. A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem alertado para o aumento de transtornos de ansiedade, depressão e outras condições relacionadas ao estresse em escala global, afetando de forma expressiva adultos em idade produtiva.

Do ponto de vista biológico, o estresse ocupacional crônico está associado à desregulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (eixo HPA), sistema que controla a liberação de cortisol. A elevação persistente desse hormônio está relacionada a transtornos de humor, prejuízos cognitivos e alterações metabólicas, enquanto hormônios como ocitocina e endorfinas — associados a bem-estar e regulação da dor — tendem a ser suprimidos em quadros de estresse prolongado.

É nesse cenário que técnicas de meditação vêm sendo estudadas como ferramentas não farmacológicas de suporte à prevenção e gestão do estresse, entre elas a meditação Heartfulness.

O que é a meditação Heartfulness

Heartfulness é uma prática meditativa associada à organização sem fins lucrativos de mesmo nome, presente em mais de 160 países e praticada por cerca de 20 milhões de pessoas em todos os continentes. O método combina três etapas: relaxamento progressivo do corpo, meditação com atenção voltada ao coração e uma prática diária de "limpeza" mental, na qual o praticante é orientado a liberar tensões acumuladas ao longo do dia. A prática é gratuita e não exige filiação religiosa.

O que mostram os estudos

Três pesquisas ajudam a situar o debate. Um ensaio clínico randomizado publicado em 2025 na revista Medicine, com 70 participantes, mostrou que 30 dias de meditação Heartfulness aumentaram significativamente os níveis de ocitocina e beta-endorfina e reduziram o cortisol, em comparação a um grupo controle — efeito replicado quando o grupo controle passou a receber a mesma intervenção.

Um outro estudo, publicado em 2023 na Frontiers in Psychology com 80 participantes ao longo de 12 semanas, encontrou redução significativa do cortisol e melhora em escalas de ansiedade, bem-estar e atenção plena entre os praticantes da meditação Heartfulness. 

Um terceiro trabalho, de caráter mais amplo, é útil para contextualizar esses achados: uma revisão de literatura de 2017, publicada na Advances (hoje Global Advances in Health and Medicine), analisou mais de 400 artigos sobre a fisiologia do estresse e associa a prática regular de meditação a menores níveis de cortisol e redução de marcadores inflamatórios. 

O que isso significa para as empresas

Diante da exigência normativa de mapear riscos psicossociais, as organizações têm buscado alternativas de prevenção que vão além de medidas administrativas, como ajustes de jornada e redistribuição de carga de trabalho, incorporando também programas voltados ao cuidado específico com a saúde mental dos colaboradores.

"Vemos com bons olhos o fato de a ciência estar se debruçando sobre práticas contemplativas com o mesmo rigor metodológico aplicado a outras intervenções de saúde. A meditação Heartfulness não se apresenta como substituta de tratamentos médicos ou psicológicos, tampouco como solução isolada para os desafios estruturais do ambiente de trabalho. Entendemos a meditação como uma ferramenta complementar, acessível e de baixo custo, que pode apoiar empresas como parte das ações de cuidado com a saúde mental de seus colaboradores — sempre lado a lado com as demais medidas de prevenção previstas na legislação”, afirma Ricardo Mucci, diretor de comunicação do Instituto Heartfulness Brasil. 

Programas de meditação corporativa, inclusive o Heartfulness, vêm sendo adotados como parte dessas estratégias. A evidência disponível sugere efeito positivo mensurável sobre marcadores biológicos do estresse, o que respalda seu uso como componente complementar de uma estratégia mais ampla de saúde ocupacional. Vale ressaltar, no entanto, que a meditação não substitui as medidas estruturais de prevenção previstas na NR-1 — como eliminação de fatores de risco na organização do trabalho e combate ao assédio — que a própria regulamentação coloca como prioridade à frente de qualquer medida individual.



Website: https://heartfulness.org.br/
FONTE/CRÉDITOS: DINO