A primeira semana do ano eleitoral começa como costuma começar no Brasil: muito barulho de fundo, pouca movimentação concreta e bastante encenação. O tabuleiro político segue praticamente congelado, enquanto as atenções se concentram em Brasília, onde cargos mudam de mãos, acordos são costurados a portas fechadas e o discurso público continua distante da realidade do eleitor. Algumas dessas articulações, claro, devem respingar na Bahia. Vamos aos bastidores.

Craque do jogo

Enquanto muita gente se apressou em acusar o senador Jaques Wagner de “traição” ao governo durante a votação da dosimetria na taxação das bets, os mais atentos perceberam o óbvio: Wagner estava jogando xadrez enquanto outros ainda brincavam de damas.

A manobra foi simples e genial. Aprovar o texto com ajuda da oposição, sabendo que Lula vetaria a dosimetria, foi empurrar a bomba para o colo do Congresso. Diante da impopularidade do tema, deputados e senadores dificilmente terão coragem de derrubar o veto e assumir o desgaste. Resultado: o governo vence, a oposição fica exposta e Wagner reforça sua fama de articulador de primeira linha. O galego, mais uma vez, saiu da mesa sem pagar a conta.

Leia Também:

Vem Coronel

Na Bahia, a oposição faz esforço para posar de anfitriã generosa e acena com tapete vermelho para o senador Ângelo Coronel. A promessa é uma vaga na chapa majoritária, em dobradinha com Marcelo Nilo, como se fosse um grande projeto de poder — quando, na prática, soa mais como desespero eleitoral.

Do outro lado, o governo joga pesado. A chapa está praticamente definida: Jerônimo Rodrigues à reeleição e a possibilidade de Diego Coronel na vice, numa tentativa clara de anestesiar o senador. Wagner e Rui canditatíssimos. Soma-se a isso uma promessa de vaga segura no Senado em 2027 e a proposta de suplência de Jaques Wagner agora. Se Lula vencer e Wagner virar ministro, Coronel assume a cadeira. Simples, concreto e politicamente vantajoso.

Comparando as ofertas, fica difícil imaginar Coronel trocando o certo pelo duvidoso. Mas política, como se sabe, também é vaidade.

Histórico de atleta

Voltou ao noticiário o estado de saúde do ex-presidente e atual presidiário Jair Bolsonaro, acompanhado, como não poderia deixar de ser, da lembrança do famoso “histórico de atleta”. A frase envelheceu mal.

Segundo seu médico, Bolsonaro enfrenta um quadro preocupante, com desânimo, lapsos de memória e episódios de perda de consciência. E aí fica a pergunta que o Brasil nunca conseguiu responder: atleta de quê? Nunca se soube o esporte. Gamer conta? Jogador de bocha também entra na categoria?

A ironia maior está nas redes sociais, onde internautas usam contra ele as mesmas frases que Bolsonaro espalhou durante a pandemia: “E daí?”, “Deixa de frescura”, “Para de mimimi”, “Larga de ser maricas”. A internet não perdoa. E a memória coletiva, muito menos.

Fogo interno

Se Flávio Bolsonaro sonha em ser o herdeiro político da extrema-direita, a realidade parece menos generosa. Esta semana, um influenciador bolsonarista defendeu publicamente o nome de Tarcísio de Freitas para a Presidência. Até aí, nada demais.

O detalhe saboroso foi a curtida de Michelle Bolsonaro. A madrasta endossou, ainda que silenciosamente, um nome que não é o do enteado. O gesto foi lido como recado interno: nem dentro da própria casa o sobrenome Bolsonaro garante unanimidade. Pelo visto, o fogo amigo está mais intenso do que a artilharia da oposição.

E Neto?

Enquanto aliados se inquietam e bases políticas se esfarelam, ACM Neto resolveu fazer o que todo líder em crise faz: viajar. Sem divulgar o destino, deixou pistas suficientes para se saber que está em algum lugar frio, com neve e, sobretudo, bem distante dos problemas da Bahia.

As férias chegam no pior momento possível. Prefeitos e lideranças que estiveram com Neto em 2022 começam a pular do barco, reduzindo drasticamente sua rede de apoio. Ainda assim, mesmo longe, ele insiste em gravar vídeos como comentarista político profissional, atacando o governo do Estado.

Talvez fosse mais produtivo calçar o sapato, visitar bases e recompor alianças. Mas isso exige presença. E presença, ao que tudo indica, não está nos planos. A pergunta segue no ar: Neto desistiu de vez ou só não quer enfrentar a realidade?

Isolado

Quem paga a conta dessa ausência é o prefeito de Salvador, Bruno Reis. Sem o padrinho por perto, ele enfrenta uma sequência de desgastes que vão desde o aumento da tarifa de ônibus até escândalos administrativos que se acumulam como entulho político.

A imagem do prefeito está tão “fritada” que até aliados evitam aparecer ao seu lado. O receio é simples: vaia pega. Na Lavagem do Bonfim, aliados já planejam passar longe para não serem alvo das vaias que virão. 

FONTE/CRÉDITOS: Redação