A Câmara Municipal de Jequié realizou, nesta quarta-feira (03), uma sessão marcada por relatos fortes e reflexões profundas sobre o respeito às religiões de matriz africana. Durante a Tribuna Livre, lideranças religiosas, representantes do Conselho Municipal de Igualdade Racial (Compir) e vereadores discutiram os desafios enfrentados pelos povos de terreiro na cidade, especialmente diante da intolerância religiosa.

A sessão também marcou a entrega de uma moção de reconhecimento às religiões de matriz africana — um gesto simbólico, mas considerado importante pelos participantes.

“Avançamos, mas ainda falta muito”, diz Pai Arthur

O Babalorixá Pai Arthur, uma das figuras mais atuantes na defesa da liberdade religiosa em Jequié, fez um desabafo emocionado na tribuna. Para ele, embora haja avanços, como a criação de uma comissão dedicada aos povos de terreiro, a realidade ainda está longe do ideal.

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“Nós não queremos ser reconhecidos, queremos ser respeitados. Queremos nosso direito de culto, nossa liberdade religiosa, como assegura a Constituição. O Estado é laico, o universo é plural”, afirmou.

Foto: Miller Rocha/CMJ

 

Pai Arthur relatou episódios de discriminação, perseguições e até ameaças de morte. Um dos momentos mais impactantes foi quando contou ter sido alvo de um processo judicial que, segundo ele, o colocou no papel de “criminoso”, mesmo sendo vítima de intolerância religiosa.

“A intolerância religiosa deixa a pessoa doente. Hoje faço festa de candomblé com medo da polícia bater à porta. Eu faço culto na minha casa com receio do que pode acontecer”, disse.

Compir reforça denúncias e pede políticas públicas efetivas

A presidente do Conselho Municipal de Igualdade Racial, Louhania Campos, destacou que Jequié possui um índice significativo de intolerância religiosa e que o Compir tem atuado colhendo denúncias, ouvindo a população e propondo políticas públicas ao Executivo.

“O Compir não tem poder judiciário, mas tem o papel de ouvir, acolher e levar as demandas adiante. A Câmara tem um projeto arquivado que nasceu das demandas dos povos de terreiro, e seguimos cobrando diálogo”, ressaltou.

Foto: Miller Rocha/CMJ

 

Segundo Louhania, o Conselho representa diversas minorias, incluindo povos de terreiro, quilombolas, comunidade LGBTQIA+, negros e indígenas. Para ela, a união desses grupos é essencial para pressionar por avanços reais.

Autor da Tribuna Livre, vereador Aroldo Brito reforça defesa das minorias

Responsável por solicitar a Tribuna Livre para as religiões de matriz africana, o vereador Aroldo Brito afirmou que sua atuação parlamentar é voltada às minorias e que não é preciso pertencer a uma religião para defender seus direitos.

“Eu não sou de religião de matriz africana, mas estou ao lado deles pela necessidade, pela invisibilidade e pela intolerância que enfrentam”, declarou.

Aroldo lembrou que existe um projeto de lei para instituir o Dia Municipal dos Povos de Terreiro, construído com participação do Compir e de representantes das pré-conferências. A proposta, porém, foi arquivada sob alegação de impacto financeiro para o município.

Foto: Miller Rocha/CMJ

 

O vereador afirmou que vai reapresentar o projeto em 2026.

“Se for para perder votos por defender minorias, eu perco feliz. O nosso papel é governar para todo mundo, independente da religião”, completou.

Debate expõe desafios e reforça luta por respeito

A sessão desta quarta-feira revelou, mais uma vez, a dimensão da intolerância religiosa em Jequié e a urgência de políticas públicas voltadas aos povos de terreiro e outras minorias. Para as lideranças presentes, a moção de reconhecimento é apenas o primeiro passo.

O sentimento geral é de que existe avanço, mas ainda insuficiente diante das demandas históricas e da persistente violência simbólica e física contra praticantes de religiões de matriz africana.

Como destacou Pai Arthur:

“O candomblé é uma religião de amor, acolhimento e família. Só queremos o direito de existir, cultuar e viver em paz, como qualquer outra religião no Brasil.”

 

FONTE/CRÉDITOS: Rafael Gomes