A Anvisa anunciou nesta segunda-feira, 6 de abril, um conjunto de medidas para conter distorções no mercado de medicamentos injetáveis à base de agonistas de GLP-1, popularizados como canetas emagrecedoras, diante de sinais crescentes de falhas sanitárias e uso fora dos padrões regulatórios.

O pacote combina revisão de normas, reforço da fiscalização e articulação com órgãos nacionais e internacionais. Na prática, a agência busca fechar brechas que vêm permitindo a circulação de produtos manipulados sem garantia adequada de qualidade, especialmente em um cenário de alta demanda por substâncias como semaglutida, tirzepatida e liraglutida.

O crescimento acelerado desse segmento, impulsionado tanto por indicações médicas quanto pelo uso estético, tem sido acompanhado por inconsistências relevantes na cadeia de produção e distribuição. Levantamentos da própria agência mostram que o volume de insumos importados supera, com folga, o que seria esperado para o consumo nacional. Em paralelo, inspeções recentes identificaram um padrão recorrente de não conformidades técnicas, incluindo falhas críticas em controle de qualidade e processos produtivos.

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Na avaliação regulatória, esse descompasso levanta suspeitas sobre a destinação e o uso desses insumos, além de ampliar o risco de circulação de produtos sem rastreabilidade ou sem validação sanitária adequada.

Como resposta, a Anvisa pretende intensificar inspeções em farmácias de manipulação, clínicas e empresas importadoras, com foco em identificar e interromper práticas irregulares. Entre as mudanças, está o endurecimento de medidas cautelares, incluindo a possibilidade de suspensão mais ágil de autorizações de funcionamento em situações consideradas críticas. Também estão previstas ações para reforçar o controle sobre a entrada de insumos no país e aprimorar os critérios de risco aplicados à fiscalização.

Outro eixo relevante é a ampliação do monitoramento de eventos adversos, com busca ativa em hospitais e serviços de emergência, estratégia que sinaliza preocupação não apenas com a qualidade dos produtos, mas também com os desfechos clínicos associados ao seu uso.

No campo regulatório, a agência deve revisar diretrizes que hoje orientam a manipulação de medicamentos, incluindo regras de boas práticas e protocolos para importação de insumos farmacêuticos. A iniciativa também prevê maior integração com o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária e cooperação com agências internacionais, em linha com referências como FDA e EMA, numa tentativa de harmonizar critérios técnicos e reduzir assimetrias regulatórias.

Comunicação e risco do uso indiscriminado

Além das ações técnicas, o plano inclui estratégias de comunicação para alertar a população sobre os riscos do uso indiscriminado dessas substâncias, especialmente fora do acompanhamento médico. A combinação entre alta demanda, promessa de resultados rápidos e oferta irregular tem colocado esses medicamentos no centro de um debate que envolve não apenas acesso, mas segurança sanitária, agora sob vigilância mais rigorosa.

Para a endocrinologista Dra. Alessandra Rascovski, autora do livro Atmasoma: O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor, os riscos do uso sem indicação médica das canetas emagrecedoras acendem um sinal de alerta. “A automedicação e o consumo motivado por fins estéticos podem trazer riscos metabólicos e efeitos adversos”, ressalta. “A utilização prolongada sem controle adequado pode alterar funções metabólicas, resultando em complicações, além de causar possíveis efeitos colaterais.”

Os números ajudam a dimensionar o cenário. Segundo o World Obesity Atlas 2025, cerca de 31% dos adultos brasileiros vivem com obesidade, enquanto 68% apresentam excesso de peso. Mantidas as tendências atuais, quase metade da população adulta do país poderá conviver com obesidade até 2030, o que reforça a classificação da condição como uma doença crônica, multifatorial e biologicamente regulada.

Nesse contexto, a manutenção da perda de peso segue como um dos principais desafios clínicos. Estudos indicam que apenas 5% a 10% das pessoas conseguem sustentar resultados significativos no longo prazo sem acompanhamento contínuo.

Diante desse cenário, a especialista reforça que o tratamento não deve se apoiar exclusivamente no uso de medicamentos. “A prevenção e o combate à obesidade requerem estratégias multifacetadas que envolvem desde a educação nutricional, incentivo à cultura de hábitos saudáveis e atividades físicas, até a conscientização sobre o check-up regular. Além disso, o tratamento da obesidade pode ser mais eficaz e preciso ao recorrer aos benefícios da medicina multiômica, que aproveita dados específicos dos indivíduos, coletados através de resultados de exames de imagem, bioquímica, análises genéticas e metabólicas para adaptar os procedimentos médicos às necessidades únicas de cada paciente”, finaliza Alessandra Rascovski.

FONTE/CRÉDITOS: Atma Soma