11 de setembro de 2025. Às 15h41, o Plantão da Globo interrompe a programação do maior canal do país. Na tela, William Bonner, âncora e editor-chefe do Jornal Nacional, anuncia: STF forma maioria para condenar Jair Messias Bolsonaro.
Quem acompanhava a leitura do voto da ministra Cármen Lúcia ouvia os argumentos ancorados em legislação e em citações de juristas consagrados. Uma sessão que já prenunciava o inevitável. O placar, até pouco antes, marcava 2 votos pela condenação e 1 pela absolvição do 38º presidente da República.
Mas, antes de comentar o resultado, é preciso voltar no tempo, ao início da nossa história como nação, para entender como chegamos a este ponto vergonhoso.
Quando Dom Pedro I declarou a independência do Brasil em 1822, o ato representou a consumação de um golpe contra Portugal, já que as terras que hoje conhecemos como Brasil pertenciam ao território europeu. Em seguida, instalou-se a monarquia, e Dom Pedro tornou-se nosso primeiro imperador.
Sessenta e sete anos depois, outro golpe: os militares puseram fim ao período monárquico e proclamaram a República. Dois anos depois, o próprio Marechal Deodoro da Fonseca foi vítima de um movimento articulado por seus pares da Marinha, renunciando à presidência para dar lugar ao vice, Floriano Peixoto.
Em 1930, mais um golpe: militares e civis inconformados com a vitória eleitoral de Júlio Prestes impediram sua posse e empossaram, à força, Getúlio Vargas. Quinze anos depois, foram os mesmos militares que retiraram Vargas do poder, empurrando-o ao gesto extremo que o imortalizou: “Saio da vida para entrar na história.”
Chegamos a 1964, o maior golpe da nossa história recente. Foram 21 anos de ditadura, disfarçada de democracia, com eleições indiretas e supressão de direitos. Um período sombrio que deixou marcas profundas no país.
Houve ainda outras tentativas e revoltas políticas nestes mais de 200 anos, mas preferi destacar aquelas em que o Exército teve participação direta.
E um detalhe é crucial: em nenhum desses golpes os responsáveis foram julgados pelas leis da época. Quando um golpe se consuma, não há espaço para a Justiça agir — instala-se o silêncio, o esquecimento, a omissão de quem deveria defender a Constituição.
No dia 8 de janeiro de 2023, registrou-se a 10ª tentativa de golpe no Brasil. Tentativa, e não consumação. E é justamente por isso que o Supremo Tribunal Federal pôde julgar os envolvidos. Se tivesse dado certo, talvez nem houvesse Judiciário.
Esse julgamento, contudo, expõe uma ferida: é uma vergonha para a democracia. Vergonha porque mostra como nossas leis ainda são frágeis na proteção dos direitos conquistados a duras penas. O simples temor da punição deveria ter desestimulado os golpistas de 2023. Mas não: a leniência histórica da Justiça alimentou esse risco.
A falha não começou agora. Em 2016, por exemplo, um deputado federal, eleito democraticamente, exaltou em plenário um torturador da ditadura militar — e saiu impune. A Alemanha, ao contrário, soube enfrentar seus fantasmas: lá, a apologia ao nazismo é crime, e quem a pratica é punido. No Brasil, a defesa de ditadores segue livre, alimentando novos delírios autoritários.
Talvez a pena aplicada a Bolsonaro e aos demais envolvidos pareça dura demais para uns, branda demais para outros. Mas o essencial é o recado: dos 27 anos de prisão aos quais foi condenado, o ex-presidente cumprirá apenas 5. Mais que um número, a sentença é simbólica: diz claramente que não haverá tolerância com novas tentativas de golpe.
A Constituição é nosso baluarte de liberdade. Protege nossas garantias individuais, sustenta nossa democracia e assegura os direitos civis. Por isso, esse julgamento não é apenas uma condenação: é o primeiro grito firme, após dois séculos de vacilo, de que o Brasil não aceitará a abolição de sua democracia.
A vergonha não está na condenação. A vergonha é que demoramos mais de 200 anos para que ela finalmente acontecesse.
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